O Espiritismo é uma doutrina filosófica que propõe a compreensão da realidade através da acumulação contínua de conhecimento, vista como base do progresso individual. Sistematizada por Allan Kardec a partir de 1857, assenta num princípio que o próprio Codificador deixou claro: em caso de divergência entre a doutrina e a ciência, deve prevalecer a ciência.
Este site existe para apresentar, de forma rigorosa e imparcial, as obras fundamentais desta doutrina — a Codificação Espírita — como ponto de partida para quem queira estudá-la. O conhecimento aqui reunido não pretende validar nem refutar; pretende apenas dar acesso direto às fontes e ao seu contexto histórico, para que cada leitor forme o seu próprio entendimento.
Mais do que uma biblioteca, este projeto nasce da convicção de que o crescimento pessoal — intelectual e moral — é o que, com o tempo, gera naturalmente a vontade e a capacidade de contribuir para o bem dos outros.
As Obras Fundamentais
A Doutrina Espírita foi sistematizada por Allan Kardec, pseudónimo de Hippolyte Léon Denizard Rivail, em cinco livros publicados entre 1857 e 1868, conhecidos como a Codificação Espírita ou Pentateuco Kardequiano.
O Livro dos Espíritos (1857)
Publicado a 18 de abril de 1857, em Paris, "O Livro dos Espíritos" é o primeiro dos cinco livros que compõem a Codificação Espírita, organizada por Allan Kardec, pseudónimo de Hippolyte Léon Denizard Rivail. A edição definitiva, de 1860, reúne 1.019 perguntas dirigidas pelo Codificador, com respostas obtidas através de diversos médiuns em diferentes países.
A obra está organizada em quatro partes: Causas Primeiras, que aborda a origem do universo e dos espíritos; Mundo Espiritual ou dos Espíritos, sobre a sua natureza e relação com os homens; Leis Morais, que sistematiza os princípios éticos da doutrina; e Esperanças e Consolações, sobre a vida futura.
Na hierarquia da Codificação, este é considerado o livro fundamental — a base sobre a qual as restantes obras de Kardec foram desenvolvidas, aprofundando temas aqui introduzidos. Os próprios espíritas costumam indicá-lo como o ponto de entrada natural para o estudo da doutrina, por apresentar os seus princípios de forma estruturada antes de se avançar para as obras seguintes.
O Livro dos Médiuns (1861)
Publicado em Paris a 15 de janeiro de 1861, "O Livro dos Médiuns" (subtítulo "Guia dos Médiuns e dos Evocadores") é o segundo livro da Codificação Espírita. Kardec apresenta-o como continuação de "O Livro dos Espíritos": enquanto o primeiro trata da parte filosófica da doutrina, este aborda a parte experimental.
A obra explica a teoria dos diferentes tipos de manifestações espíritas, os meios de comunicação com o chamado "mundo invisível" e o desenvolvimento da faculdade mediúnica, que Kardec descreve como latente em todas as pessoas em diferentes graus. São também discutidas as dificuldades práticas que podem surgir no estudo destes fenómenos.
Na hierarquia da Codificação, este livro representa a vertente metodológica do Espiritismo: parte da observação de fenómenos (as chamadas "mesas girantes", populares na Europa em meados do século XIX) para construir, segundo Kardec, um "tratado que tem por fundamento a pesquisa científica e a experiência". É geralmente indicado a quem já conhece os princípios de "O Livro dos Espíritos" e quer aprofundar o aspeto prático da doutrina.
O Evangelho Segundo o Espiritismo (1864)
Publicado em Paris a 15 de abril de 1864, "O Evangelho Segundo o Espiritismo" é o terceiro livro da Codificação Espírita. A sua primeira edição saiu com o título "Imitação do Evangelho", substituído já na segunda edição pelo nome definitivo; a estrutura atual ficou estabelecida na terceira edição, de 1866.
A obra organiza-se em 28 capítulos, cada um centrado numa passagem dos evangelhos canónicos, seguida de comentários e de "Instruções dos Espíritos" obtidas por via mediúnica. Os temas incluem a fé, a caridade, a reencarnação e os princípios da moral cristã, interpretados sob a ótica espírita. O livro termina com uma coletânea de preces.
Enquanto "O Livro dos Espíritos" estabelece os fundamentos filosóficos e "O Livro dos Médiuns" a vertente experimental, este terceiro livro completa o conjunto com o pilar moral: a aplicação dos princípios da doutrina à conduta pessoal. É descrito pelos espíritas como um ponto central de referência para a reforma íntima — o trabalho de aperfeiçoamento moral individual proposto pela doutrina.
O Céu e o Inferno (1865)
Publicado em Paris a 1 de agosto de 1865, "O Céu e o Inferno" — cujo título original era "A Justiça Divina Segundo o Espiritismo" — é o quarto livro da Codificação Espírita. Tem como tema central a questão da justiça divina: o que acontece ao espírito após a morte, e em que medida essa condição resulta dos próprios atos durante a vida.
A obra está dividida em duas partes: a primeira, "Doutrina", faz um exame comparado de diferentes correntes religiosas sobre a vida após a morte, discutindo conceitos como anjos, demónios, penas eternas e purgatório, e apresenta a posição espírita sobre o tema. A segunda parte, "Exemplos", reúne relatos atribuídos a espíritos em diferentes condições — descritos como "felizes", "sofredores" ou "em expiação" — sobre a sua experiência após a desencarnação.
Na Codificação, este livro aprofunda um tema já introduzido em "O Livro dos Espíritos": a ideia de que a condição do espírito no "mundo espiritual" é apresentada como consequência das suas próprias ações, e não como um veredicto externo aplicado por uma autoridade divina.
A Génese (1868)
Publicado em Paris a 6 de janeiro de 1868, "A Génese, os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo" — habitualmente referido apenas como "A Génese" — é o quinto e último livro da Codificação Espírita. Várias das suas ideias tinham sido previamente discutidas na Revista Espírita, publicação que Kardec dirigiu entre 1858 e 1869.
A obra divide-se em três partes. A primeira analisa a origem da Terra e do universo segundo três perspetivas — orgânica, espiritual e bíblica ("mosaica") — procurando uma leitura racional, sem recurso a explicações sobrenaturais. A segunda parte aborda os chamados "milagres" descritos nos evangelhos, propondo explicações baseadas em leis naturais ainda não totalmente compreendidas pela ciência da época. A terceira trata de predições sobre o futuro da humanidade.
É a obra em que Kardec mais explicitamente desenvolve o aspeto científico da doutrina, situando-se como o seu trabalho mais maduro dentro da Codificação. O livro reafirma a posição, presente em toda a obra de Kardec, de que ciência e Espiritismo "se completam reciprocamente" — sem um, falta à doutrina comprovação; sem o outro, falta à ciência uma explicação para certos fenómenos.
Obras Póstumas (1890)
"Obras Póstumas" foi publicado em Paris em janeiro de 1890, organizado pela Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, sob a direção de Pierre-Gaëtan Leymarie, mais de vinte anos após a morte de Allan Kardec, em 1869.
O livro abre com uma biografia de Kardec e o discurso proferido no seu funeral pelo astrónomo Camille Flammarion. Segue-se uma compilação de textos divididos em duas partes: artigos escritos por Kardec mas não publicados em vida — por falta de tempo ou por já não refletirem com exatidão o seu pensamento mais recente — e registos de comunicações mediúnicas em sessões nas quais Kardec participou.
Importa notar que esta obra não integra a Codificação Espírita propriamente dita (os cinco livros anteriores, conhecidos como Pentateuco). É, antes, um documento histórico sobre o pensamento e o percurso do Codificador, reunido após a sua morte a partir de materiais que ele próprio não chegou a organizar para publicação.
Além dos cinco livros da Codificação, existe ainda "Obras Póstumas", publicado em 1890 a partir de escritos de Kardec não publicados durante a sua vida. Não faz parte da Codificação, mas é frequentemente associado a ela como obra complementar — daí ser referido como "5+1".